Última Edição nº 31
Dezembro 2016

Editorial da Devarim 31 - Dezembro 2016

Procura-se um cachorro

No Brasil, a expressão “no mato sem cachorro” caracteriza de forma espirituosa uma caminhada em terreno desconhecido sem a orientação de um guia. Estar num mato sem cachorro é uma coisa ruim.

Contudo, existe uma situação ainda pior, para a qual não inventaram um dito popular. Pior do que não ter orientação é estar perdido, porém convicto de trilhar o rumo certo. Ou seja, analisar uma conjuntura sem perceber que ela não se encaixa nos teus paradigmas e preconceitos (no sentido benigno da palavra).

Nestes últimos meses, o mundo testemunhou com incrível consistência esta situação. No caso do Brexit, um governo confiante colocou em votação algo que jamais teria colocado se estivesse com o mapa correto. Algo semelhante aconteceu no processo de paz do governo da Colômbia com as FARC. E, mais recentemente, a eleição de Trump nos EUA mostrou uma mídia completamente perdida, dando como certa sua derrota mesmo depois da contagem dos votos ter começado.

Contudo, apesar da competição acirrada, me parece que o campeão mundial do “mapa errado” é o mundo árabe em sua análise sobre o Sionismo e sobre Israel. Os detratores do Sionismo abrigam convicções equivocadas há muito tempo e não dão a menor mostra que já se deram conta disso.  

No mapa árabe, o Sionismo é uma aventura colonialista. Os judeus seriam aventureiros europeus que saíram pelo mundo a conquistar territórios de povos vulneráveis, motivados exclusivamente pelo desejo de expandir o domínio e poderio de seus países.

Sabemos que esta leitura é um lamentável equivoco. A começar por um fator primordial: se Israel é realmente fruto da mentalidade colonialista, qual é a potência colonizadora? O escritor Amos Oz (que até hoje não ganhou um Prêmio Nobel porque ele é outorgado por uma comissão em cujo mapa versos de protesto se confundem com literatura) construiu uma inspirada imagem para fixar a sua percepção de que o embate árabe - sionista não é o confronto entre um certo e um errado e sim entre dois certos. Segundo ele, a luta do Sionismo é análoga à de um náufrago que se dirige a um barco instável e pede a seu ocupante que lhe ceda um pequeno espaço para que não se afogue. 

Se existe alguma relação entre Sionismo e colonialismo ela é de oposição e não de harmonia. O Sionismo enfrentou desde a origem justamente o poder colonial, primeiro o Otomano, depois o Britânico. E na dupla condição de nação oprimida no Império Russo e de grupo ao qual a cidadania plena foi rejeitada de fato na Europa Central e Ocidental pós-Iluminismo, os judeus procuraram construir seu próprio país e sua própria liberdade, desafiando Impérios e Estados poderosos, o que certamente não guarda nenhuma semelhança com nenhuma ideia colonial de dominação sobre outros povos. Lembrando ainda que o Estado de Israel estendeu a cidadania plena a todos na Proclamação da Independência em maio de 1948, promovendo igualdade e não dominação “colonial”. 

A adequada caracterização do conflito árabe - israelense como sendo a luta de um certo contra outro certo jamais encontrou ressonância junto às lideranças árabes, que continuam aferradas à percepção de estarem lutando contra uma injustiça.

As consequências de confiar num mapa errado são dramáticas. A confusão de Sionismo com colonialismo faz com que por um lado ele seja inaceitável e pelo outro que ele seja reversível (tal qual aconteceu, por exemplo, com a colonização francesa no norte da África, quando uma resistência continuada resultou na retirada da potência colonizadora).

Portanto, o mundo árabe pressiona os palestinos a não aceitarem nenhum compromisso, visto que qualquer um seria injusto, e a manterem a fé de que sua determinação fará com que os judeus, um dia, evaporem no ar ou voltem para seus países de origem (dentro dos quais, ironicamente, se contam todos os países árabes). 

Faz também com que eles fantasiem um passado no qual Jerusalém nunca foi judaica, o judaísmo é somente uma religião e o povo judeu uma mera invenção.

O quanto antes este mapa for trocado melhor será para todos. A ONU deveria promover esta mudança ao invés de se dedicar todos os dias a passar resoluções risíveis que têm como único resultado fortalecer as equivocadas certezas dos árabes com relação a Israel.

Mas será que podemos esperar isto de um ambiente que com admirável constância se engana em suas avaliações? 

 

Raul Cesar Gottlieb

Diretor de Devarim