Última Edição nº 36
Agosto 2018

Editorial da Devarim 36 - Agosto 2018

Judaísmo S/A

No final de junho, um canal de televisão israelense colocou no ar uma perturbadora  reportagem a respeito do tratamento diferenciado que a vinícola Barkan, uma das maiores de Israel, passou a dispensar aos empregados etíopes da linha de produção.

Eles estavam sendo transferidos de posições onde tinham contato direto com o vinho para posições na retaguarda da linha de produção, mantendo, contudo, a mesma remuneração.

Estas transferências aconteciam por conta de “discriminação religiosa”, denunciou a reportagem, explicando que a vinícola estava se candidatando a receber mais um selo de kasherut, além dos que ela já tem. Ela almejava o certificado da “Edá Haredit”, uma organização ultra-ortodoxa, cuja visão estreita exclui do povo judeu os “Beta Israel”, ou seja, os judeus que viveram segregados na Etiópia desde os tempos bíblicos e que, portanto, não tiveram contato com o Talmud e a Lei Oral. 

E como a halachá (lei religiosa judaica) não permite que vinho kasher seja manipulado por não judeus, a Edá Haredit exigiu que os etíopes não tivessem contato com o produto.

“Negócios são negócios!” exclamou o diretor geral da Barkan em reação à reportagem. “Nós não prejudicamos os empregados, apenas os transferimos de setor. Se a Barkan não conseguir o selo da Edá Haredit não vai conseguir expandir seu mercado, o que é ruim para a empresa, seus colaboradores, e também os consumidores que apreciam nossos vinhos.”

Mas não foi bem isto que pensaram os consumidores. A repercussão da reportagem foi muito danosa para a vinícola, que, que foi acusada de racismo por críticos de todos os lados, inclusive pelo rabino chefe ultra-ortodoxo Sefaradi. Pressionada pela possibilidade de boicote, a Barkan desistiu do selo da Edá Haredit.

Não é de hoje que se sabe que a diferença entre o vinho kasher e o não kasher não consiste em nenhum tipo diferente de procedimento de produção, assim que o episódio suscita algumas reflexões.

Porque acusar apenas a Barkan e apenas agora de racismo? Se a Barkan foi racista, então todos os fabricantes de vinho com selo de kasherut são racistas. Porque não clamar por um boicote geral? Com certeza ninguém com alguma estatura moral considera que discriminar etíopes é pior do que discriminar não judeus.

Um segundo ponto a ser considerado é a questão da proibição da manipulação do vinho por não judeus. Esta lei está baseada na existência de antigos rituais idólatras que usavam vinho e tinha o louvável objetivo afastar o judaísmo da idolatria. Mas esta situação não mais existe hoje. Então porque não reformar a lei? 

Que motivo impede a religião que excluiu práticas escritas no texto da Torá e mais tarde consideradas antissociais, tais como escravidão, pena de morte e poligamia, de abolir um regulamento que meramente deriva de uma interpretação casuística do texto?

Ainda há um terceiro aspecto, que me parece ser ainda mais deletério: o episódio demonstra que a kasherut é hoje regida pelas leis do capitalismo. Antigamente, quando a produção de alimentos era caseira e artesanal, o universo era completamente diferente. A preparação de alimentos kasher era implementada por milhões de aderentes em suas casas, com a intenção voltada unicamente para o cumprimento das mitsvot, sem nenhuma contaminação por interesses comerciais.

Hoje em dia a kasherut é apenas mais uma faceta do negócio de produção em massa de alimentos. Valem as regras do mercado e são elas que regulam a obtenção das licenças. Além do caso da Edá Haredit (que ao criar um selo próprio formata um mercado cativo), fomos surpreendidos há um tempo atrás (ver Devarim 29) pela informação que uma empresa importadora comprou o direito exclusivo de colocar um selo de kasherut no whisky Johnnie Walker Black Label, bloqueando sua venda para o mercado kasher por outros distribuidores. Neste caso a kasherut não depende nem dos ingredientes, nem do processo nem de quem produz o produto, mas apenas de quem paga mais pelo direito de distribuí-lo. Uma outra faceta comercial é a questão do “registro da marca”. A palavra “kasher” é registrada e apenas as empresa que pagam pelo selo do Rabinato podem ostentá-la, mesmo que seus processos sejam estritamente aderentes à halachá.

É triste constatar que, hoje em dia, a Torá é usada como máquina de fazer dinheiro. As práticas do mundo dos negócios devem ser moderadas pelos ditames morais da religião. Jamais o contrário. 

Raul Cesar Gottlieb

Diretor de Devarim