Última Edição nº 37
Dezembro 2018

Editorial da Devarim 37 - Dezembro 2018

 

A Lei de Godwin

Ninguém que esteja familiarizado com o contexto no qual o hino dos Partizans Judeus (combatentes irregulares que lutaram contra os nazistas e seus colaboradores durante a segunda guerra mundial) deixa de se emocionar com a força de sua mensagem.

Nem a precariedade dos recursos, nem a hostilidade de parte considerável da população civil, nem a extrema brutalidade dos inimigos, ou desconfiança nem sempre velada dos demais grupos de combatentes “amigos” conseguiu esmorecer a fé dos Partizans de que um dia sua luta seria vitoriosa. Se não em sua geração, nas próximas. Em algum momento no futuro: “nunca diga que este é o fim do caminho, pois de geração em geração seguiremos lutando”.

A liguagem do poema é crua e direta: “este não é um canto feito por pássaros voando sob o céu azul do verão, esta é a voz de pessoas que tiveram a oportunidade e a coragem de resgatar sua honra empunhando armas enquanto o mundo desaba em sua volta.”. Mesmo para um povo acostumado à incessante perseguição antissemita, a Shoá (a tragédia nazista) foi um acontecimento único, não muito bem compreendido e francamente irreproduzível.

E é também um fenômeno histórico que está sendo aviltado nos dias de hoje. Tanto no Brasil como em tantos outros lugares do mundo.

O advogado norte americano Mike Godwin, propôs em 1990 uma “lei de comportamento” que diz: quanto mais uma discussão na internet se alonga, maior é a possibilidade de uma comparação envolvendo nazismo e Hitler, momento no qual a discussão efetivamente acaba. Alguns postulam que o primeiro lado a invocar o nazismo perdeu a discussão, pois é evidente que ficou sem argumentos.

O passar do tempo não apenas confirmou a percepção de Godwin como fez com que sua lei se expandisse para além da internet, ao mesmo tempo em que se encurta muito o prazo no qual um dos lados tira da manga a cartada nazi-fascista.

Vimos isto no último ciclo eleitoral do Brasil, quando os adversáros não tiveram o menor prurido em se acusar de fascista, nazista e comunista. 

Debater políticas, discutir caminhos, ponderar propostas, tudo isto foi ausente da campanha. Sobraram insultos, generalizações, e retórica inflamada. Estes foram os grandes vencedores da eleição. 

Ou seja, segundo Godwin, todos sairam perdedores. 

Me parece, então, oportuno reviver o hino dos Partizans, para que, fechando olhos e ouvidos ao que vai à volta, introjetemos a imagem do que foi o nazismo e da bravura exigida para sua resistência. 

Vamos descobrir que Pittsburgh não é um prenúncio da Kristalnacht, que nenhum dos lados das nossas disputas políticas é fascista ou nazista e que a aversão pelo diálogo com quem achamos diferente (e até mesmo repugnante) vai destruir a possibilidade de convivência com o diferente. Seremos todos perdedores. 

Raul Cesar Gottlieb

Diretor de Devarim

 

Zog nit keyn mol - Nunca diga

 

Nunca diga que este é o fim do caminho,

Apesar dos céus de chumbo esconderem os dias azuis.

Ainda chegará a hora pela qual ansiamos,

Nossos passos retumbantes proclamarão “aqui estamos!”

 

Das palmeiras verdejantes até as distantes alvuras da neve,

Estamos chegando com nossa dor e desventura.

Onde nosso sangue tiver ensopado a terra,

Florescerão nosso poder e nossa bravura.

 

O sol da manhã ainda iluminará nosso dia.

Nosso inimigo vai esvair e desaparecer.

Mas se a alvorada e o sol nos tardarem a aparecer,

De geração em geração cantaremos essa canção.

 

Esta canção foi escrita com sangue e não com tinta,

Não foi cantada no verão por pássaros voando ao alto.

Foi um povo em meio a barricadas ardentes,

Que a cantou empunhando pistolas em suas mãos!

 

Então, nunca diga que este é o fim do caminho,

Apesar dos céus de chumbo esconderem os dias azuis.

Ainda chegará a hora pela qual ansiamos,

Nossos passos retumbantes proclamarão “aqui estamos!”