Última Edição nº 38
Abril 2019

Editorial da Devarim 38 - Abril 2019

Na etimologia do hebraico, encontramos algumas pistas que nos indicam a formação do pensamento judaico e a composição, por meio de palavras, de uma trama filosófica que nos permite ver o mundo de forma muito particular, intrigante e especialmente instigante.

A língua hebraica atribui três palavras para designar a Lua, duas masculinas, outra feminina.

A palavra mais utilizada é Iareach. Se a palavra for decomposta, identificaremos o prefixo “iá”, que representa Deus (como em “haleluiá” – que significa literalmente “louvem a Deus”) e a raiz da palavra “ruach”, que significa espírito (o espírito soprado por Deus no homem, conforme a tradição bíblica). A Lua seria, portanto, um espírito divino, objeto que talvez, num passado pré-judaico tenha sido adorado, e que com o tempo se transformou em fonte de inspiração para a aventura humana, orientando viajantes, estimulando apaixonados, alimentando poetas.

Iluminando a noite, a Lua foi também identificada como Levaná, palavra feminina, cuja origem imediata é “lavan”, a cor branca. Mas, como os meandros da língua nos conduzem por caminhos nem sempre tão diretos, a mesma raiz é utilizada na palavra “leveiná”, que significa tijolo, o que nos permite olhar para a Lua observando-a como um corpo celeste, concreto e inanimado (sem alma), sem significado espiritual, apenas uma das tantas partes do universo.

Como boa parte de nós há de lembrar, “leveiná” nos remete a Pessach, onde uma música infantil nos lembra como nosso povo escravizado assentava um tijolo sobre o outro na construção das obras para o Faraó.

Não é surpresa, então, encontrar a terceira palavra que representa a Lua, Sahar. Sua raiz faz-nos encontrar “sohar”, prisão ou aprisionamento, com a qual percebemos a Lua aprisionada à noite, cumprindo seu inevitável destino, em sua eterna órbita ao redor da Terra. 

Minha conclusão é que, de certa forma, o judaísmo nos propõe, através da Lua, uma reflexão sobre o paradoxo humano, o espírito aprisionado na matéria. Nosso pensamento passeando livre por todas as nossas utopias e potenciais, enquanto o dia a dia nos restringe a um caminho muito mais estreito e por isso mesmo tão desafiador.

A partir desse desafio, por um momento, fixemo-nos na Lua, Levaná, e nos deixemos levar pelo jogo de palavras que suas letras nos permitem desenhar. E logo chegamos a “livnot”, construir, e também a “biná”, entendimento. A construção do entendimento, origem e meta da ciência.

E aqui nosso caminho nos leva ao encontro da Lua e da ciência, por meio de Bereshit, a nave não tripulada, projetada e construida em Israel, enviada à Lua. Com verdadeiro sabor judaico,  todo o projeto, conduzido por cientistas e engenheiros brilhantes e visionários, mantém ao lado de todo o esforço técnico, o desafio educacional que pretende perenizar nos jovens israelenses o sabor da descoberta, a motivação para a ciência, a capacidade de se maravilhar incessantemente com o mundo a nossa volta.

Não se trata apenas de vencer um desafio, mais um para o pequeno Estado de Israel. Mas também de reunir ao corpo concreto da nave por meio de uma cápsula que nela viaja, os valores espirituais e intangíveis da nação judaica: canções, histórias, uma cópia da declaração da independência, o Hatikva, o Tanach.

A cápsula nada agrega ao aspecto científico da empreitada.

Mas é exatamente esta cápsula que vai permitir que, tal qual nossos antepassados, que formularam o idioma hebraico, quando à noite, olhemos para cima, vejamos algo que está alem do que nossos olhos alcançam. Seja no esplendor da Lua cheia, no mistério que se adivinha na Lua nova, ou na expectativa da metade de seu ciclo, a enxergaremos por inteiro, parte tangível do mundo que nos cerca e ao mesmo tempo metáfora de sonhos e deuses, rainha noturna dos infindáveis mistérios do universo. 

Nesse momento, a Lua nos serve de espelho, em cujo reflexo se conciliam, para formar o Homem, uma alma em expansão, matéria em contração e uma permanente busca de sentido para a existência.

Ricardo Gorodovits

Membro do Conselho Editorial de Devarim