Última Edição nº 32
Junho 2017

Editorial da Devarim 32 - Junho 2017

Mais Talmud!

E sua mulher olhou para trás e converteu-se numa coluna de sal”. Com estas poucas palavras (apenas seis em hebraico) a Torá relata o destino da esposa de Lot. Esta, e mais centenas de outras histórias relatadas em nosso livro fundacional, são aclamadas pela sabedoria expressa num estilo direto e econômico, mas ao mesmo tempo, e talvez com mais intensidade, são ridicularizadas pelos que leem a Torá como documento histórico.

“Ninguém jamais se converteu em sal!”, “Qual o valor destas historietas infantis?”, dizem, sem perceber que muito mais importante que o relato é a mensagem contida dentro do relato. Em consequência não percebem que a mensagem daquelas seis palavras é objeto de inúmeros estudos acadêmicos sobre a alma humana e sobre o desenvolvimento social e político. Estudos estes que comprovam com o rigor científico exigido pela academia que a fixação com o passado, a incapacidade de superar traumas, pode vir a ser petrificante. Pensem como o nosso mundo seria diferente apenas se a Alemanha tivesse aprendido a superar o trauma da derrota da guerra de 1914-18 sem se petrificar no desejo de vingança.

Parece-me que um dos motivos para a imortalidade da Torá é justamente o uso de relatos, que as vezes parecem infantis, para conduzir mensagens poderosas. Caso os danos causados pela incapacidade de superação de traumas fosse descrito por um artigo acadêmico poucas pessoas teriam acesso àquela verdade. Mas ao ser apresentado em formato pictórico e resumido o ensinamento encontra um eco poderoso. Pois é inegável que os humanos adoram historinhas.

Nossa época comprova esta predileção de forma muito contundente. O que mais importa hoje em dia é o relato. Políticos em busca de convencimento para suas teses usam e abusam de relatos, via de regra melodramáticos. Os imigrantes muçulmanos, pais de um filho que perdeu a vida em combate no exército são usados para demonstrar quão sublime é a imigração, ao passo que o outro lado rebate expondo o drama da família de uma jovem assassinada por um imigrante criminoso reincidente. A nenhum dos candidatos ocorre apresentar aos eleitores um estudo aprofundado a respeito dos efeitos da imigração ou das consequências com a tolerância à ilegalidade.

Ou seja, não mudamos muito desde a antiguidade. Contudo já fomos mais sábios do que somos hoje. O judaísmo nunca ficou parado nos relatos da Torá. Os relatos fundacionais foram dissecados em busca de significado em milhares de midrashim, que deram origem aos acalorados debates da Mishná e da Guemará, num processo que permanece vivo até hoje. É deste processo e não dos relatos da Torá que nascem as leis comportamentais e societárias do judaísmo. O relato é insight inicial, o disparador de toda uma visão de mundo. A cultura judaica não deriva da validade dos relatos e sim das conclusões que emanam deles.

Mas, infelizmente, o mundo contemporâneo parece ter abandonado esta faceta civilizatória. Tudo o que importa hoje é o relato. A grande maioria da imprensa e muitos intelectuais, se limitam a publicar os relatos dos diversos grupos e decretar que, tendo em vista as divergências, há uma “polêmica”. Poucos se aventuram a avaliar a verdade dos relatos divergentes. A identificar as falsificações, mesmo quando grosseiras. A pesquisar a reputação histórica dos autores dos relatos.

Assim, assaltantes e assaltados, opressores e oprimidos, supremacistas e tolerantes são colocados num mesmo patamar, pois cada um tem o “direito” a apresentar seu relato. Mesmo quando este é amoral e mentiroso. E tem este “direito” nos foros mais elevados - na UNESCO, no Conselho de Direitos Humanos da ONU, etc. 

A prevalência do relato sobre a busca pela verdade é, a meu ver, o motivo pelo qual a discussão política se deteriora a olhos vistos. Como todos os relatos são válidos, a vitória será de quem conseguir calar o adversário na foça bruta e não na dos argumentos. Por isto não deveriam nos espantar os gritos que tentam calar debatedores, as manifestações violentas, es exclusões sumárias, as bolhas criadas pelas mídias sociais nas quais só participam os que concordam com a visão do grupo. Num mundo onde a análise honesta e isenta perdeu valor é imperativo silenciar a divergência.

Está mais do que na hora da humanidade olhar para a dinâmica cultural judaica e se engajar no debate ao estilo talmúdico. A valorização acrítica do relato tem o potencial de exterminar a nossa civilização.

Raul Cesar Gottlieb

Diretor da Devarim