Última Edição nº 35
Abril 2018

Editorial da Devarim 35 - Abril 2018

A biblioteca que virou país

“Existe realmente uma nação judaica, mas ela se distingue de muitas outras nações pelo fato que o percurso de sua vida não se pontua pelos seus genes nem por vitórias no campo de batalha, e sim por livros.”

A meu ver, este trecho do livro “Mais de uma luz” de Amos Oz(1) responde com perfeição à indagação que nos persegue desde sempre: quem somos? É uma indagação universal mas que, entre nós, causa grande dissonância. 

Contudo, há 70 anos  - um quase nada numa caminhada de 4 mil anos - o Estado de Israel introduziu uma perturbação neste cenário. Nos obrigamos voluntariamente a deixar de ser uma nação definida  apenas por ideias e nos empenhamos em fazê-las migrar da biblioteca para a rua, coisa que não acontecia há pelo menos 2 mil anos. 

Este processo envolve escolhas entre as várias abstrações que convivem na biblioteca e, depois disso, em sua adequação para o tangível. É um processo doloroso, pois no fim da linha há sempre uma comprovação concreta, que aniquila muito do que nasceu como bela, se bem que irrealizável, teoria.

Até aqui este processo é amplamente vitorioso. Israel abriga uma sociedade que está na 11a colocação no “World Happiness Report” da ONU, com níveis de pobreza real (não relativa) dentre os menores do mundo e um nível europeu de qualidade de vida. Tudo isto num país em estado de guerra desde sua independência, encravado numa região onde a turbulência é a regra.

Politicamente, Israel é a mais bem sucedida criação do século passado (no mínimo).

A imensa sabedoria de nossa tradição afirma que apenas Deus é perfeito. Assim que o Estado de Israel, fruto de mãos humanas, não obstante seu sucesso, tem falhas. E, por incrível que pareça, as mais graves se situam em duas situações onde nossa literatura é abundante e onde a sensibilidade histórica não deveria deixá-las acontecer.  

A primeira é a ocupação da Cisjordânia e o consequente imperativo de governar sobre uma população que não deseja ser parte de Israel. Pressionados por uma insensata (quantos falsos messias já tivemos!) religiosidade messiânica insistimos em dar espaço a pessoas que dizem interpretar com fé cega e fanática a vontade de Deus e causam a brutalização do exército e uma situação de difícil sustentação a médio-longo prazo. 

A segunda é ainda mais incompreensível. Depois de tantos séculos sofrendo discriminação religiosa, os judeus de Israel, a cada eleição, cedem às demandas dos que impõem uma única forma de expressão religiosa à população judia do Estado. 

Sabemos que foi uma vital necessidade política que inventou este esquema. Entendemos os motivos e aplaudimos a decisão da época. Mas, depois de 70 anos, ainda invocar a manutenção de um ultrapassado staus quo é, ao mesmo tempo, um erro trágico e uma acomodação covarde.

Com a mesma intensidade que a desocupação da Cisjordânia, o maior desafio de Israel em seus próximos anos é reconhecer que, da mesma forma como as forças voluntárias do mercado fizeram avançar Israel econômica e socialmente, a religião sem coação vai fazer Israel e o judaísmo avançarem espiritualmente. 

O Estado não pode interferir na religião, que é uma questão de foro íntimo. Seguidores de uma corrente religiosa não podem ter nenhum tipo de privilégio. A opressão da Rabanut desvaloriza a mulher, estigmatiza os homoafetivos, afasta os judeus de sua cultura e cria um sistema corrupto que envenena a sociedade israelense. 

Mas com certeza, Israel será vitorioso também nestas duas lutas, pois a opressão é insustentável. Contudo, ela não acaba por si só, conforme acabamos de relembrar em Pessach.

Pela benção de Israel ser uma democracia, estas situações podem ser revertidas pelos votos dos eleitores. E nós, os judeus da Dispersão que concordamos com a análise acima, podemos apoiar a mudança dos rumos políticos ao deixar clara, sempre que possível, nossa rejeição tanto ao messianismo quanto à coerção religiosa.

Festejamos intensamente os 70 anos de Israel. Com a mesma intensidade devemos lutar, cada um dentro de sua capacidade, pela igualdade e pela desocupação.

Raul Cesar Gottlieb

Diretor de Devarim

(1) 2017, Companhia das Letras, traduzido por Paulo Geiger