Última Edição nº 33
Agosto 2017

Editorial da Devarim 33 - Agosto 2017

Brasil 1 x __ Alemanha

A mais conhecida das lendas do futebol brasileiro conta que na Copa de 58 o técnico Feola instruía a seleção antes do jogo contra a Rússia: “O meio de campo troca passes curtos para atrair a defesa russa, Garrincha se coloca à direita e, no momento propício, Nilton Santos faz um lançamento certeiro da esquerda para trás da adiantada defesa russa. Garrincha chega na linha de fundo e cruza a bola para a entrada da área, onde Mazolla solta a bomba para dentro do gol russo”. Garrincha solta, então, a frase histórica: “Tá legal, seu Feola, entendemos tudo, mas o senhor já combinou isto com os russos?”.  

A pergunta meio sonsa de Garrincha tenta demonstrar a Feola que não adianta planejar pressupondo a reação dos adversários. Vai que os russos não são atraídos pelos passes no meio de campo: a estratégia dá com os burros n’água. O jogo se ganha reagindo ao que acontece no campo e não seguindo conjecturas feitas fora da realidade.

Ressalvando a enorme diferença no contexto, esta história me veio à cabeça ao ler as análises sobre os 50 anos da Guerra dos Seis Dias. A maioria delas centrou na ocupação da Cisjordânia, como se o entorno que a provocou não a tivesse influenciado (e continuado a influenciar) e como se os dois lados no conflito usassem a mesma cartilha de valores.

Um dos Ilustres “russos” ausentes das análises são as ameaças árabes de extermínio dos israelenses. Tais como: “Estamos determinados a ensopar a terra com o seu sangue, e jogar vocês no mar” (Hafez Al-Assad então ministro da defesa da Síria), “O povo árabe quer lutar. Nosso objetivo é a destruição do Estado de Israel” (Gamal Abdel Nasser, presidente do Egito); “Quem [entre os judeus] sobreviver ficará na Palestina. Mas na minha opinião ninguém sobreviverá” (Ahmed Shukieri, fundador da OLP).

A Guerra dos Seis Dias e a ocupação são consequências diretas destas ameaças e das ações concretas dos países árabes para implementá-las. É lamentável que se opte não mencionar estes “insignificantes” fatos.

Outro notável “russo” ausente é a cartilha de valores do mundo islâmico. Não obstante as cruas realidades da ditadura e corrupção Palestina em Gaza e na Cisjordânia; da Al-Qaeda e do ISIS; dos atentados terroristas em escala global; das características patriarcais e tribais da sociedade árabe que não abrem espaço para o endosso às liberdades individuais; não obstante tudo isto, o mundo árabe é idealizado como aderente aos ideais expressos na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

A HBO está passando nas madrugadas o documentário “Cries from Syria”, sobre a guerra naquele país. É apavorante. Pois é claro que os dirigentes da OLP e do Hamas não têm uma significativa distância cultural de Al-Assad e do ISIS e o pensamento “se eles são capazes de fazer isto com seus cidadãos, o que farão conosco, se puderem?” se instala na mente de forma perene.

Todo o foco das análises é sobre as ações de Israel, como se ele estivesse sozinho em campo, quando na verdade ele justificadamente percebe estar enfrentando a barbárie. A ocupação é ruim. Não há muita dúvida a respeito. Mas como é possível analisar a situação sem avaliar quão melhor ou minimamente aceitável seria a não ocupação? E como é possível propor soluções para o conflito sem reconhecer que a aproximação do mundo árabe aos princípios que fundamentam as liberdades individuais e a consequente prosperidade do Ocidente é um dos caminhos para a paz? 

O trágico destino dos heróicos palestinos que tentaram e tentam trilhar este caminho, propondo coexistência e cooperação com os israelenses é outro aspecto que inexiste das análises. Desde Sami Taha e Fawzi Darwish al Husayni, os assassinados membros da “Brit Shalom” proposta por Judah Magnes e Martin Buber nos anos 1940, aos encarcerados Palestinos que defendem o “execrável crime” de normalização das relações com os vizinhos judeus nos dias de hoje.

A minoria judaica que rejeita o Estado Palestino é retratada como se majoritária fosse, enquanto que a maioria árabe que nega o direito à existência do Estado de Israel quase não é mencionada.

É como se o jogo da semifinal da Copa de 2014 entre Brasil e Alemanha fosse analisado sob a ótica exclusiva do gol do Brasil, sem ligar a mínima para os 7 gols da Alemanha e, então, concluir “de forma isenta e equilibrada” que a Alemanha é uma campeã ilegítima. 

Parece piada. Mas infelizmente é apenas a moderna manifestação da velha doença do antissemitismo.

Raul Cesar Gottlieb

Diretor de Devarim